domingo, 27 de julho de 2008

O doce e o amargo.
O vinho e a água.
Meu silêncio e as palavras.

O medo e a razão.
O vento e a montanha.
Meus pés... sem chão.

A fome e a sede.
A ânsia do desejo
Minhas lágrimas... o azedo.

O delírio da febre
A morfina e a cicuta.
Minha vida... a sua.

O amor e o ódio.
O ódio e o amor.
Deixo-te o amor, fico com o ódio.
Fico só.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Uma dose de Ópio

“Saltei num instante para cima do armário que pesava sobre o meu corpo imóvel e frágil; de início sentia dor, o olhar profundo e saltado como quem dissesse ‘vou fugir agora’; minhas mãos socavam o chão até a pele não mais sentir a fúria dele e nem os calos latejantes; e minha boca a voz do silêncio, ecoando absurdamente sem espaço no quarto; meus pensamentos primordiais de agonia e desespero foram sufocados pelo prazer da dor que consumiu todo tempo/espaço existente ou ‘inexistente’ em minha mente; a saliva gotejava pelo canto da boca com mais saciedade que nunca e as lágrimas revestidas em suor circulavam minha face branca e pálida, anestesiando cada centímetro da minha nuca; o cabelo comprido, liso, se confundia entre as costas molhadas, lembrando leves traçados num quadro vazio, pingos escuros de chuva lambuzavam o tracejo; eram minhas pintas, sim, as pintas, minhas marquinhas únicas de sabor chocolate derretido. Passei a crer na inexistência daquele momento, precisaria fecundá-lo, mas não o queria; queria sim permanecer imóvel, só e intocada, como a mata virgem de nuvens brancas no céu; um mar de algodão-doce, eu supunha; ‘ai q vontade de comê-las!’. Dei por mim que a febre fazia-se presente; espiava a porta trancada do armário, sem conseguir me aproximar; era distante, não, não; eu não podia entrar. O fluxo da vida corria ali dentro e eu o temia. Sentia-me num vôo tímido de filhote pousando no algodão-doce, o mesmo que despertara meu desejo mais primário; a gula. Seu cheiro ecoava folha seca, inalava juventude e corrompia o medo; eu disse pra ele ‘tenho dezessete anos e sobre ti quero repousar até os dezoito. Ainda não sei nada aqui de fora, mas quero fundar minha escada de madeira dentro de ti, escada exclusiva para o meu uso, subirei de pés descalços, moribunda, com uma saúde até meio debilitada; escada essa de madeira, pra caso desgostar dos degraus, poder trucidá-los e um novo devorar. Subirei desnuda, fedida, sem cheiro de morte, como sai do ventre de outra mulher e vim ao mundo, forçando suas pernas, para olhar para aquele pedaço de terra, chorar..e não ser ouvida. Senti-me um profeta diante da fechadura. Não aquele que olha pro sol e não se cega com seus raios, mas o que tem medo deles e cega-se de luz! Olha pro fruto que come e tenta achar o sabor amargo que não conseguia mais degustar; Eu posso! Eu entro! Desci cuidadosamente do armário e me pus a sentir a brisa que saia pelos furinhos da porta; o zumbido do meu ninho, do meu cata-vento; eu seria o profeta de minha própria história, divagando entre as paredes escuras e construiria a minha escada; a minha escada; a minha. Olhei então para os meus olhos esvaecidos e fiquei confusa; onde estaria a chave? Aquela que abriria a porta pra minha saudade, pras pestes adormecidas, pro ácido verminoso do meu peito. Eu tinha simplesmente forjado a armadura, o livro, a insanidade, o punho dolorido, A escada; e gritei sem som algum: Aqui ninguém nunca entrará!”